Esclarecimento Procura-se
Mas
porque é que pensei aquilo? A verdade é que por mais que esperasse, a
resposta não vinha. Então esperei um pouco mais. Mas a resposta teimava
em não vir. Desviei o olhar do chão, ou do céu, fosse aquela escuridão o
que fosse, e levantei-me às apalpadelas, como aliás, sempre fazia. Era
sempre de noite naquele lugar. Triste e sombrio, tudo ali era tenebroso e
desconhecido. Embora ansiassem por mais, os meus olhos tinham-se já
acostumado à imensidão da penumbra que abraça aquele lugar quer de dia,
quer de noite, isto é, se realmente existe ali algum dos dois.
Todos aqueles que me rodeavam me falavam na luz. Luz, quem és?
Nunca
vivi em lugar algum senão nas trevas da noite. Naquele sítio, o Sol
nunca brilha: creio que até ele tem medo de se mostrar em local tão
sombrio como aquele, que parece ser só meu. Nunca vi ninguém por ali:
sou só eu e a solidão dos meus pensamentos, misturados com aquelas
vozes. Essas, perseguem-me todos os dias, a todos os momentos. Por vezes
parecem ecoar de todos os becos daquela minha cegueira e, ao mesmo
tempo, de lado algum.
É de calcular que, por esta altura, o leitor esteja já confundido. Pois se assim é, bem-vindo ao meu mundo.
Mas
voltemos ao tema principal. Isolado no meu universo obscuro, dei por
mim a matutar em algo que jamais me havia trespassado a mente… quer
dizer… não é bem assim. Na realidade, creio que não existe sequer um
pensamento que não tenha já atravessado o meu só e enegrecido intelecto.
No entanto, tento afastar as ideias mas obscuras e ocultas que o
assolam, tento não lhes dar atenção e espero, quase que suplicando em
silêncio, que desapareçam. Afinal, obscuridade já eu tenho que sobre,
mas desta vez não fui capaz. Foi mais forte do que eu. Por mais que
tentasse afastar aquele pensamento, ele continuava a bater
incansavelmente na minha pobre cabeça, até eu lhe dar um pouco de
atenção. Só aí cessaria com aquele martelar incomodativo e me deixaria
em paz. Vi-me forçado a dar-lhe ouvidos. “Mas que ideia é esta então?”,
pergunta-se o meu caríssimo leitor, seja somente por mera curiosidade ou
até mesmo por calcular que me pode dar uma resposta para a minha
questão por resolver. Pois é com certo pesar que lhe revelo que,
infelizmente, começo a desconfiar que este meu problema não tem resposta
ou solução possível. Confesso agora a quem se digna a ler estas pobres
linhas, fruto de um momento de negra e solitária reflexão, que a única
conclusão a que cheguei no fim de tudo isto é que,sim, realmente tenho
um problema ou enigma ou como o meu leitor lhe quiser chamar. Até aqui,
nada de novo. A minha grande e pequena conclusão, visto que não serve de
muito, foi que, afinal, e para meu grande desalento, o meu problema se
desdobrava e multiplicava tão rapidamente quanto o meu cérebro permitia.
Dividi então, toda esta parafernália de confusões em tema e subtemas.
Estes últimos, tornavam-se cada vez mais infinitos à medida que
apareciam na minha cabeça. Eram como forasteiros que assaltavam o meu
pensamento e o ocupavam, sem mais o abandonar. E assim que se
instalavam, sentiam-se suficientemente à vontade para se reproduzirem,
mesmo que o meu pobre cérebro não o permitisse. Eram infractores da lei,
imparáveis e implacáveis, esses malditos. E quanto mais lutava contra
eles, mais eles atacavam e contra-atacavam. Rendição à vista? Essa
parecia-me já a única forma de sair daquela batalha com um pingo de
dignidade no sangue.
E
pensar que tudo isto começou por um simples “porquê?”… “Mas porquê o
quê?!”, pergunta sua excelência, o meu paciente e dedicado leitor, que
já deve estar a sentir-se algo entre o entediado, o curioso e o
enfurecido, daí eu estar a tratá-lo com tamanha polidez. Talvez seja por
isso que o meu irmão mais velho, homem de palavras caras e sábias, diz,
tantas e repetidas vezes, que posso não ver mais do que uma cortina
negra diante dos meus olhos, mas que o meu poder de bajulação persuasiva
está lá.
Voltando
ao nosso ponto de interesse, onde é que estávamos? Ah sim, “ mas porquê
o quê?!”. Ora, porque é que tudo parece estar envolto numa sombra
cerrada para mim? E partindo daqui, eu pergunto-me: o que é a luz? O que
são as cores e as formas dos objectos? E como são os teus olhos,
grandes ou pequenos, amendoados ou arredondados?, como é o teu nariz,
fino ou largo, afilado ou achatado, como são exactamente os teus
lábios?, deles conheço apenas o seu suave toque e sabor, e como são as
tuas mãos, oh, as tuas mãos, cujo toque reconheço sob todas as condições
possíveis e imaginárias e que delas somente posso relembrar a sua
suavidade e humidade característica? Imagino tudo isto, mas porém, sem
certezas. Será isso suficiente? E porque é que tu, tu e todos, sussurram
entre si sobre tudo isto que me atormenta o dia-a-dia sem nunca me
darem uma resposta concreta?
Esclarecimento procura-se, e esta oferta está aberta também para si, caríssimo leitor.
Leonor de Carvalho (31/5/2011)